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Resenha | The Giver e se você vivesse no lugar mais perfeito do mundo?

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Resenha | The Giver e se você vivesse no lugar mais perfeito do mundo?

Que perfeição seria essa?

Vou começar indo direto ao ponto: The Giver, romance de 1993 escrito por Lois Lowry, é uma obra dirigida ao público infanto-juvenil. Não que isso seja um problema, certo? Ele foi lançado no Brasil em 2009 pela Ed. Sextante com o título de O doador, mas caiu na minha mão a edição em inglês mesmo. Sem crise.

Jonas é um menino muito inteligente e sensível de 11 anos que tem a vida mais redondinha do mundo: mora com os pais e a irmã em uma comunidade onde todos têm sua função definida na sociedade, nascem, crescem, comportam-se estritamente segundo o figurino, recebem a indicação do ofício que deverão seguir, se casam, criam filhos. A cada idade correspondem determinados comportamentos e determinada aparência, e tudo é bem certinho, as pessoas parecem satisfeitas. Não há tristeza, não há dor (opa, remédios são liberadões, só pedir), não há insegurança nem diferenças entre as pessoas. Então chega o dia em que Jonas completa 12 anos e, em uma cerimônia pública, recebe do conselho dos mais velhos da comunidade a indicação da função que deverá desempenhar: após um treinamento ele vai se tornar um guardião das memórias de todo o grupo.

O treinamento de Jonas é ministrado pelo atual Guardião, que pede ser chamado de “Giver”, ao passo que Jonas torna-se “Receiver”. O velhinho passa a Jonas a memória de coisas, situações e sensações que são desconhecidas pela comunidade, mas que são fundamentais para a tomada de decisões em momentos-chave e, por que não dizer? para a sobrevivência daquelas pessoas. Sem o Guardião as memórias todas – boas e ruins – circulariam pela comunidade e seriam um fardo para as pessoas. E então Jonas começa a enxergar mais do que seus olhos viam todos os dias.

Como vocês podem ver The Giver é mais uma distopia mostrando uma sociedade fortemente controlada, em que seus componentes são despidos de sua individualidade e tornam-se apenas uma pecinha como as outras do grupo. Mais uma vez a gente percebe que o sujeito pode ser aprisionado de várias formas, inclusive pela supressão da memória e pelo controle da linguagem.

Dominar a comunicação e dominar as lembranças – não só individuais, mas de uma coletividade – são formas razoavelmente antigas de controle. Por exemplo, quando os jesuítas vieram pro Brasil e se depararam com tamanha diversidade étnica e cultural entre os índios trataram de estabelecer uma língua geral mesclando linguagem indígena e português: isso facilitava a comunicação entre missionários e índios, mas apagava também termos e usos da língua original. Dominar a cultura de um povo é uma das formas de subjugá-lo, de passar por cima de costumes, de memórias, de possibilidades de resistência. Os caras que mantêm a memória “a salvo” com o guardião na comunidade mostrada em The Giver usam o pretexto de “evitar a dor”, mas sabem também que dar conhecimento do que é bom e do que não é gera insatisfação, e insatisfação gera contestação.

Gostei bastante do livrinho, é leitura gostosa e inspiradora – e se eu soubesse escrever roteiros já tinha começado a redigir um. Ele retoma muitas ideias que reconhecemos em 1984, em Fahrenheit 451, Admirável Mundo Novo, em O jogo do exterminador, Jogos vorazes e outras obras conhecidas, e faz a gente pensar bastante sobre a necessidade de controle e os limites para que ele ocorra em uma sociedade, sobre a importância do conhecimento, da memória, da individualidade (vocês também acham um paradoxo isso de a gente viver em um mundo extremamente individualista, mas ao mesmo tempo exaltar a importância do esforço coletivo? Filmes norteamericanos estão cheios disso, já repararam? A reafirmação de como cada um é “especial” e deve “ser do seu jeito” e ao mesmo tempo o reforço daquele negócio do “somos uma equipe”. É um equilíbrio muito delicado!). Há adaptações da história para o teatro e rumores muito fracotes de que ela viraria filme dirigido pelo David Yates neste ano. Boto fé não, nem o IMDB lista a adaptação como projeto desse diretor, mas vamos ver.

Não se assuste com o fato de a história não estar traduzida para o português: como eu disse, é leitura infanto-juvenil (são 179 páginas na minha ediçãozinha de bolso) e quem tiver um pouquinho de dificuldade vai se virar numa boa mesmo com um dicionário. E, opa, o livro pode ser facilmente encontrado em livrarias virtuais por menos de 25 reais na versão gringa e menos de 20 na tradução brasileira. Divirta-se!

  • esse é um dos meus top fvoritos foréva. fico incrível quando as pessoas aceitam tentativas de censura e controle bem-intencionadas, me faz lembrar bastante das pessoas dessa história. agora vou atrás de gathering blue e messenger, da trilogia the giver.