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Resenha | Ficção científica da boa: A descronização de Sam Magruder

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Em um dia de fevereiro de 2162 o cientista Sam Magruder, de 42,5 anos, desapareceu: num minuto estava em seu laboratório, onde desenvolvia experiências em cronologia, no outro não estava mais. Sobraram apenas suas roupas, seus sapatos, seu relógio. A imprensa noticiou o desaparecimento, as investigações prosseguiram sem qualquer conclusão, mas seus assistentes sabiam o que acontecera e o resto do mundo saberia dali a vários anos: Magruder conseguira viajar no tempo. O primeiro humano a ser descronizado, a ser lançado em outro ponto qualquer do tempo – mais especificamente no final do período Cretáceo, quando os dinossauros ainda existiam.

A ideia acima, formulada pelo paleontólogo George Gaylord Simpson (1902-1984) nos anos 70, não é estranha pra mim nem pra você, que já acompanhou as aventuras de Marty McFly indo e voltando no tempo a bordo do famoso DeLorean, ou que se familiarizou com as imagens do convívio turbulento entre humanos e dinossauros que a série Jurassic Park tornou famosas. Entretanto, uma das coisas que diferenciam A descronização… das outras obras que imaginaram viagens no tempo ou que juntaram humanos e dinos é a ênfase na imensa solidão de Sam Magruder, com a perspectiva de passar o resto de sua vida sem a presença de qualquer outro ser humano, à mercê da natureza e tendo apenas seus conhecimentos teóricos  – cuja real utilidade ele acaba por colocar em dúvida – e sua vontade para garantir sua sobrevivência.

Pense só numa coisa: você que vive o paradoxo da Era da Informação, experimentando ao mesmo tempo algum tipo de desligamento das relações do “mundo real” e a conexão constante a muitas fontes de informação e pessoas; você aí que fica em silêncio absoluto e que só faz barulho com as teclinhas do micro (oi, presente!), você que no fim das contas está e não está sozinho. Já pensou você de repente deixar de ter qualquer perspectiva de interação com outro ser humano, imaginou uma situação irreversível? G. G. Simpson não escreveu seu livro no contexto do tempo da internet, ele era um sujeito que dependia de cartas, telefone e de presença física para interagir. E mesmo assim ele soube traduzir a sensação de solidão e abandono de um ser humano de forma notável, talvez por ser um cara bastante solitário – como nos conta o biólogo Stephen Jay Gould (1941-2002), seu aluno mais famoso e um dos ilustres convidados a escreverem sobre o romance e seu autor.

Mas voltando ao livro, claro. A terrível história de Sam Magruder só se torna conhecida porque ele decide deixar um registro escrito de sua experiência cretácea, mesmo sabendo que as chances de que suas lajes escritas sejam encontradas são quase ínfimas. É a grande obra de sua vida. Ali ele narra seu cotidiano, suas impressões e sensações, filosofa sobre sua posição de humano fora de contexto, sobre a natureza, sobre o tempo, sobre a evolução dos seres vivos e, claro, sobre os dinossauros: ele será o único humano a ter convivido com os lagartões e pode, com sorte, ajudar os cientistas do futuro a preencher lacunas de conhecimento como as cores dos animais, seu comportamento, o funcionamento de seu organismo. Ele tem inclusive a chance de interferir na evolução humana, quando se depara com pequenos animais que, conclui, eram antepassados do Homo sapiens. Não é isso que passa pela cabeça de todo mundo quando se fala em “voltar no tempo”, interferir no seu curso? Magruder, posso dizer sem jogar no colo do leitor um spoiler, deixa passar a oportunidade. Vale acompanhar sua justificativa durante a leitura.

Cretáceo: destino da descronização de Sam Magruder

Por que você deve ler A descronização de Sam Magruder, leitorzinho camarada? Porque ele é uma das melhores obras de ficção científica já escritas: bem pensado, bem escrito, bem costurado, honesto. Porque você percebe consistência em tudo o que o autor escreve, nos conceitos científicos que ele utiliza, e porque ao mesmo tempo ele consegue unir essa honestidade sensacional com uma possibilidade fantástica. Você também não pode perder esse livro de vista porque ele é de leitura rapidíssima, fluida, mas te deixa pensando muito sobre o lugar do ser humano na sociedade e no planeta ao longo do tempo, sobre a História e seu componente principal, que é o Tempo, sobre a Evolução, além de, claro, estimular aquele sentimento de “…e se fosse eu no lugar desse cara, o que eu ia fazer?” Precisa de mais motivos?

Livro é apresentado por Arthur C. Clarke

A edição da Editora Fundação Petrópolis é limpinha, honesta, caprichada, e vem com um excelente prefácio sobre G. G. Simpson (onde você descobre que ele esteve no Brasil algumas vezes e foi um dos maiores paleontólogos que já pisou este planetinha, sendo o maior especialista em mamíferos em sua época), uma apresentação escrita por ninguém menos do que Arthur C. Clarke, posfácio de Stephen Jay Gould (leitura obrigatória pra quem gosta de biologia, evolucionismo, sociedades humanas) e um curto texto de sua filha Joan S. Burns, responsável pela publicação póstuma da obra, em 1995. Se me permitem adicionar mais um comentário, o livro é baratinho, fácil de encontrar por menos de R$ 30,00.

A descronização… é, até onde sei, pouco conhecido, o que é uma pena. Não costuma aparecer em listas de leituras clássicas, não me lembro de vê-lo numa daquelas listas de obras de ficção científica imperdíveis. Gostaria de encontrar outros leitores pra ouvir mais opiniões. Convite feito, então? Leia, pense e escreva pra nós contando o que achou! Boa diversão!

  • Denicol

    me interessei! =)
    mas o link num funfou aqui… (procurei por minha conta e achei por R$ 24,00) =)

  • terracotabolsas

    Gostei da resenha, Deh! Sem entregar toda a história você consegue despertar a vontade de ler o livro, e nos faz imaginar o que seria estar na pele do Magruder. Como adoro histórias de viagem no tempo, fiquei interessadíssima. Obrigada pela dica!

    Beijos!

    Cristine

  • Leonardo

    Li só uma parte, um texto grande desse deve contar o livro inteiro. LOL

    Mas o que li interessou.

  • Deh Capella

    Então, veja bem, Leonardo, o livro é legal demais e dá vontade de escrever bastante sobre ele.