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Resenha | Jogos Vorazes

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Resenha | Jogos Vorazes

Peguei o livro, abri as páginas, cheirei (é ritual, liguem não. O doce cheiro do livro novinho!) e dei aquela olhada, li as orelhas, a contracapa. Ali tinha uma frase da Stephenie Meyer elogiando Jogos Vorazes, primeiro livro de uma trilogia da autora Suzanne Collins[bb].

Acendeu aquela luzinha vermelha, porque a moça da história dos vampiros não é pra mim aquele exemplo de boa autora – fãs da saga Crepúsculo, cês me desculpem mas é isso mesmo, gostei da série não, mas isso explico outra hora ou nem explico.

Bom, mas aí aproveitei o final de semana e comecei a leitura na tarde de sábado. E terminei as 397 páginas na madrugada de domingo pra segunda. Foram duas ou três paradas pra ler, não conseguia fechar o livro, meu descansinho pré-SWU foi pras cucuias, mas não foi em vão.

É o seguinte: em algum futuro não-especificado os EUA entraram em guerra e se transformaram em Panem, uma nação dividida em 13 distritos (um arrasado) governados por uma Capital, que fica nas Montanhas Rochosas.

A Capital tudo vê, tudo controla, e obriga cada distrito a enviar todo ano dois tributos, ou seja, um rapaz e uma moça sorteados (se você se lembrou do mito cretense/grego do Minotauro, é isso aí).

Os tributos de todos os distritos vão se digladiar até a morte em um combate transmitido em rede nacional (lembrei muito daquelas cenas da arena da Feira de Carne de Inteligência Artificial).Ao vencedor, fama, reconhecimento e prosperidade, e aos perdedores sete palmos de terra. Os jovens são obrigatoriamente inscritos todo ano a partir dos 12 anos de idade e podem ter seu nome inscrito mais vezes em cada sorteio caso decidam “adquirir” tésseras, que são cotas de óleo e grãos.

Então, em um dos sorteios no paupérrimo Distrito 12, a pequena Prim Everdeen é escolhida, mas sua irmã mais velha, Katniss, se oferece para ir aos Jogos Vorazes em seu lugar; o tributo masculino é Peeta Mellark, filho do padeiro. O livro fala sobre a participação dos tributos do Distrito 12 nos Jogos a partir do ponto de vista de Katniss, menina corajosa que assumiu o sustento da mãe e da irmã depois que o pai morreu em uma explosão na mina onde trabalhava.

Por que não deu pra largar Jogos Vorazes enquanto não acabou: primeiro porque a ação é de tirar o fôlego; segundo, porque tudo é tão bem descrito que não deu pra parar de visualizar cada cena (não se espantem se ele virar roteiro de cinema e filme – oremos pra que não botem uma Hannah Montana da vida no papel principal, amém);  terceiro, porque é uma narrativa extremamente eficiente, no sentido de te enfiar sem esforço no lugar da protagonista, e quando você percebe já está pensando no que faria se fosse a Katniss; quarto, porque reúne elementos muito coesos de crítica à sociedade do espetáculo, ao capitalismo e ao totalitarismo.

Fahrenheit 451: outro romance distópico

A indicação oficial é de que Jogos é literatura infanto-juvenil, e o livro pode servir muito bem pra introduzir à molecada mais nova elementos de romances distópicos, que são todo um mundo maravilhoso de cenários e contextos possíveis/impossíveis. A forma como Katniss, sua equipe dos Jogos e os demais competidores transitam em frente às câmeras e participam do jogo de aparências estabelecido pela Capital como forma de dominação lembram muito alguns filmes e livros que cutucaram o assunto comunicação/imagem/poder (O show de Truman, Ed TV, Idiocracy, nosso velho amigo Fahrenheit 451, V de Vingança, entre outros). Se você tem aquele(a) parente ou amigo(a) que anda tendo os miolos sugados pelo poder de alguma tela (inclusive nesses tempos tristes de eleição), Jogos Vorazes é um presentinho ou mesmo uma simples indicação de leitura que vem a calhar.

Se você já está familiarizado com distopias e procura ação honesta e limpinha (tá certo, não é limpinho o que acontece nos Jogos, é cruel, imundo e aterrorizante, melhor assim?), vale a pena procurar pelo livro também. Stephenie Meyer pode não ter sido boa lá com os vampiros de peito marmóreo e os lobisomens sentimentais dela, mas ela conhece boa literatura e tem razão: o livro é mesmo surpreendente.

PS: Jogos Vorazes saiu neste ano pela Rocco Jovens Leitores. Trabalho caprichado. Que venham os outros volumes!