Um site que não é lá.

Resenha | O lado humano das guerras: Cartas do front

2

Ao longo da vida vamos descobrindo – na escola, nos livros, nos filmes, na vida real, nas novelas também – que existem formas diferentes de se contar uma história e que existem muitas histórias entremeadas em meio a uma, vamos dizer, “narrativa” principal. Mas é fato que em cada contexto de reprodução de cada história pode haver uma narrativa principal, o que significa que há pontos de vista diferentes a partir dos quais aquilo pode ser contado.

Quando se conta a história das grandes guerras tudo isso que eu escrevi ali em cima acontece. Estamos habituados a reconhecer determinado ponto de vista como o hegemônico/principal e é a partir dali que conhecemos situações e eventos e aprendemos a reconhecer uma “linha mestra”, um foco de ação principal daquele grande evento.

Isso coloca em relevo, na minha opinião, não as interpretações mais usuais e as situações mais conhecidas, mas exatamente o oposto: aquilo que não é divulgado, que está por trás ou que de alguma forma não se espera conhecer.

É bem provável que vocês já tenham lido, nem que seja em livros didáticos, relatos a respeito da I Guerra Mundial do ponto de vista dos países que terminaram vitoriosos; são raras as obras que abordem o “outro lado” envolvido (um ótimo exemplo é Nada de novo no front, de Erich Maria Remarque, que recomendo.

Deve ser fácil achar em sebos. Tem um filme baseado no romance, se alguém encontrar me avise, por favor, que gostaria muito de rever). Um dos fatores de grande sucesso da série Band of Brothers é o fato de que ela não se ateve à “linha mestra” dos conflitos da 2a. Guerra Mundial e procurou entrelaçar as histórias pessoais de indivíduos diretamente envolvidos nela – embora representantes, mais uma vez, do lado vencedor -, dando à história do conflito um teor de humanização grande.

O livro dessa quinzena, Cartas do front*, investe de forma admirável nessa vertente de recuperar o aspecto humano de vários conflitos armados, desde a Guerra Civil até os conflitos mais recentes (últimos 25 anos) no Leste Europeu e no Iraque. Seu organizador, um norteamericano chamado Andrew Carroll, viajou o mundo em busca de cartas trocadas durante e depois de guerras por combatentes, amigos e parentes (a edição brasileira vem “turbinada” com um pequeno capítulo com cartas escritas por e para combatentes da Força Expedicionária Brasileira em missão na Itália). Após a leitura da Introdução, que é uma sensacional aula a respeito de como e com o que se escreve a História, o leitor tem acesso a cartas inteiras e a trechos de correspondências que revelam todo tipo de sentimentos e reflexões, desde a fé extrema até a preocupação com situações muito prosaicas, que os soldados e as pessoas próximas desenvolveram durante as guerras.

Um dos exemplos mais divertidos é a cartinha de uma senhora alemã que, durante a I Guerra, escreveu ao comando do exército solicitando que o marido fosse dispensado por alguns dias para …ahn…bem, para cumprir seus deveres conjugais. A esposa aflita justificava seu pedido dizendo que não podia trair seu marido e não podia mais “viver desse modo”. O oficial que respondeu à missiva tão corajosa (pensem: aquela senhora abordava um assunto de foro íntimo e fazia um pedido extremamente honesto e incomum desses no ano de 1917) pediu à sua autora que tivesse um pouquinho de paciência, afinal eram muitos soldados e não seria possível atender a todos os pedidos de licença o tempo todo. A gente dá risada, né, mas a vida de uma pessoa que tem um membro da família em combate não deve ser fácil – ela arca, em boa parte das vezes, sozinha com a criação dos filhos, a administração do lar, a expectativa, e se o combatente sobrevivia também haveria o grande risco de se ter em casa uma pessoa com comportamento, hábitos, visão de mundo muito alterados.

Um soldado australiano que participou da II Guerra Mundial escreveu cartas apaixonadas à esposa enquanto esteve fora de casa. Ao voltar para casa aquele sujeito amoroso desapareceu; quando começou a Guerra da Coreia, em 1950, ele correu a se alistar, saudoso da vida no front, e o marido/pai zeloso e cheio de amor pra dar se manifestou novamente nas cartas enviadas para casa.

Uma das riquezas desse livro é a recuperação dessa variedade incrível de sentimentos, muitos inesperadíssimos, que podem estar envolvidos em uma situação de guerra. Outra é o fato de que Carroll procurou reunir, dentro das possibilidades, cartas que vieram de todos os lados envolvidos nas guerras, o que permite que o leitor conclua que falar de “vencedores” e “perdedores” não faz muito sentido quando se trata de seres humanos em contexto de combate. Outro ponto muito positivo, pelo menos pra mim, é o gosto especial que tem a leitura de documentos pessoais como diários e cartas – é quando se está o mais próximo possível daquilo e daquele que se lê.

Quem for procurar pelo livro vai achar o precinho salgado (entre R$ 40,00 e R$ 60,00 – eu o encontrei num stand da Bienal do Livro de SP com 50% de desconto), mas posso garantir que compensa e muito.

Boa leitura!
_____________

* Editora Jorge Zahar, 2007.

  • Cleuton

    Show de bola!!Vou usar com os meus alunos!!

  • valvuladeescape

    Quando comecei a ler pensei justamente em comentar algo que, por fim, você escreveu, sobre conhecer as histórias a partir do ponto de vista de quem esteve envolvida nela. Seja qual for esse envolvimento.
    Thais