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Resenha | Ben-Hur

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O maior orçamento de sua época. A maior quantidade e os maiores cenários da história do cinema. Mais de 300 02artistas a serviço da produção. 10 mil figurantes. Mais de 2500 animais empregados. O primeiro filme a chegar na marca de 11 prêmios Oscar pela academia. Desde a sua estréia em 1959, considerado o épico dos épicos, e diga-se de passagem seu status permanece inalterado mesmo em 2016 .Dito isso, o desafio de uma releitura do clássico Ben-Hur, definitivamente estaria fora de consideração. Mas sabemos que não é bem assim que Hollywood funciona nestes dias.

Por volta de 26 D.C. Judah Ben-Hur é um príncipe Judeu que após se negar a entregar seus compatriotas rebeldes a causa do império romano em Jerusalém, é traído pelo seu irmão adotivo Messala, o novo tribuno das legiões romanas. Escravizado por anos e com a perspectiva de ter perdido sua família para sempre, Judah aproveita uma chance do destino para por em curso a sua vingança. O que ele não esperava é que em sua jornada guiada pelo ódio, seu caminho se cruzasse com “um” profeta que semeia a esperança e o amor ao próximo, independente de quem este fosse.

O diretor russo Timur Bekmanbetov assume a direção de uma produção já preconceituosamente alvejada pelo mero 01fato de ser um remake, e de fato, reconhecendo o valor do material já existente, é notório o esforço de se buscar novos horizontes dentro de uma mesma história principalmente quando se tem em conta que este é a 3ª refilmagem (de um longa). No elenco, Jack Huston (Boardwalk Empire) encara o papel de Ben-Hur, enquanto Toby Kebbell (Quarteto Fantástico) fica com o personagem Messala Severus. O brasileiro Rodrigo Santoro fica sob o manto da figura icônica de Cristo enquanto o elenco ainda conta com Ayelet Zurer, Sofia Black-D’Elia, Nazanin Boniadi e  a presença de Morgan Freeman.

A comparação é inevitável com o longa do final dos anos 50 e mesmo que diferentes direções tomadas, o livro de Lew Wallace ainda é a fonte em que se bebe. Huston, ocupando o lugar que um dia foi do aclamado Charlton Heston, tem menos tempo para desenvolver seu personagem, pois raramente o cinema moderno abre oportunidade hoje em dia para projeções de mais de 150 minutos (o filme de 59 de William Wyler originalmente tinha quase 4 horas  de duração) o que faz com que este personagem tenha uma interpretação mais física do que fluída a medida que a história evolui.

A edição de 2016 também preferiu desenvolver de maneira mais explícita o passado dos personagens e a conexão 04destes opostos mas mesmo assim, é visível que Kebbell não atinge o mesmo nível do papel do Messala de seu antecessor Stephen Boyd, que em poucas cenas já deixa definido a que veio, a princípio, uma qualidade maior do roteiro que foi objetivo neste ponto. Enquanto a versão do personagem em 59 possuísse o maniqueísmo óbvio, o Messala de Kebbell foi escrito para sentir o conflito interno ao condenar e deixar a própria família que um dia o acolheu a mercê da crueldade do império romano. Infelizmente Kebbell oferece pouquíssimo range emocional ao lidar com seu papel. Definitivamente aqui, um dos fatores que mais compromete o longa. Aliás, um dos problemas do novo Ben-Hur é justamente este. Enquanto busca em um maior número de imagens e mais enfoque no desenvolvimento seja da história ou na trajetória dos personagens, ainda é nítido a falta de ligação de um ponto à outro e quando menos se espera, as situações que desencadeiam o andar do conto passam despercebidas e sem impacto por mais grave que seja o tom adotado. Huston também nos oferece um Ben-Hur mais limitado em uma performance que aparenta nunca chegar ao seu clímax (E que deixemos claro aqui que mesmo faturando a estatueta da academia, Heston tinha muito mais talento escolhendo seus papéis do que especificamente atuando). 03

A suposta agilidade do longa de Bekmanbetov, apesar de acertar na direção de arte e ter tomadas mais intimistas e fechadas para valorizar o centro da ação, deixa a desejar no quesito de vincular de alguma maneira estes clássicos personagens com o espectador. A sua visão de Cristo interage muito mais com os demais personagens e tem seu acerto com Santoro fazendo uma variação menos formal da costumeira visão ortodoxa de sua representação nos cinemas, mas o esforço em sempre colocar referências bíblicas acaba deixando sua presença muito jogada aqui e alí em poucas passagens do filme, ficando no ar a sensação de que tudo é muito gratuito ou até mesmo demasiadamente explicado reforçando que este é de fato o filho de deus. A tarefa de construir uma nova releitura de Cristo em prol da originalidade neste caso chega a ser injusta já que a versão de William Wyler foi muito inteligente em nunca mostrar o rosto ou a voz de Cristo, deixando o mesmo subjetivo ou até mesmo em aberto para que cada um tenha a sua interpretação pessoal. Morgan Freeman usa o seu ar de severidade mesclada a bondade de sempre, como já fez em muitos outros papéis em sua carreira, mas enfim, nada comprometedor.

Se o novo Ben-Hur não é perfeito em desenvolvimento de roteiro e personagens uma coisa que Bekmanbetov sabe 05fazer são sequências de ação, (vide sua experiência em O Procurado, Guardiões da Noite/do Dia) apesar das comparações sempre existirem e mesmo porque o clássico já fez isso e muito bem, mais outro fator revolucionário na época. Os flashbacks das campanhas das legiões romanas e o momento mais aguardado, a corrida de bigas, tem boas sequências e bem menos inserções digitais do que se imaginava. O uso do próprio elenco para as cenas de ação passam mais credibilidade em suas tomadas.

Enfim, Ben-Hur de 2016, para o estúdio provavelmente não passaria de mais um caça níquel, mas para os envolvidos o mesmo tem mais significado, e como já mencionado, o esforço é notório, mas não recompensado. Uma pena que para a nova geração, a refilmagem não passará de mais um breve momento que fez algum ruído em sua estréia, mas que naturalmente, provavelmente pelo seu predecessor, não passe de mais uma página rapidamente virada na história do cinema.