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Resenha | Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey)

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“Não tem problema que saiu de uma fanfic de Crepúsculo (Twilight), vamos dar uma chance ao livro de E.L. James.”

Assim foi meu pensamento ao começar ler a trilogia Cinquenta Tons de Cinza.

Ao decorrer das páginas, logo percebi a dificuldade que encontraria pela frente.

Gostaria de pode falar somente bem dos livros. Eu realmente tentei gostar.  Mas antes de falar bem ou mal, vamos ao enredo.

O nome do primeiro livro da série, Cinquenta Tons de Cinza, faz mais sentido em Inglês (Fifty Shades of Grey), uma vez que a palavra grey, além de significar a cor cinza em português, também é o sobrenome do protagonista Christian, e a autora faz uma alusão à suas diferentes facetas. Christian Grey é um jovem magnata cujo sucesso foi conquistado com esforço e uma mãozinha do destino apesar de sua origem obscura. Charme, beleza, sedução, perfumes, bom gosto, helicóptero particular, motorista exclusivo, cobertura. Um verdadeiro “príncipe” que aparece na vida de Anastasia Steele e desde o primeiro momento percebemos a tensão e o desejo entre os dois. Fica difícil para Anastasia resistir aos cortejos de Grey, que a cerca de diferentes maneiras. Enquanto isso existe José, amigo de Ana que também a deseja mas que possui função irrelevante na trama.
Ana é uma garota simples e inocente. Não se considera bonita ou atraente e não entende por que Grey a deseja. O livro todo é sobre a tentativa de Anastasia em aceitar ser submissa de Grey, disponível e obediente sempre que ele desejar, vestindo o que ele comprar, comendo quando ele mandar, praticando exercícios conforme ele estabelecer e realizando seus desejos sexuais no “quarto vermelho da dor”. Atrelado a isso, há um festival de orgasmos, com cenas de sexo que não são tudo aquilo que a fama do livro promete, e muito pouco sadomasoquismo na verdade.

Em sequência temos Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker) e a autora elabora um pouco mais o relacionamento entre os dois, tentando mostrar o passado de Grey e os motivos que o levaram a ser dominador. Há um pouco de suspense proporcionado por uma ex-submissa mentalmente instável, ainda apegada ao relacionamento com Grey e que coloca em risco a vida de Ana. Os dois estão cada vez mais apaixonados, porém é impossível compreender o motivo, uma vez que não sabem se comunicar. Teimosa demais, Anastasia consegue penetrar um pouco no íntimo de Grey, mas os personagens continuam superficiais e a trama ainda escrita de maneira piegas, com uma leve melhora em comparação com o primeiro livro.

Em Cinquenta Tons de Liberdade (Fifty Shades Freed), o relacionamento passa para um nível mais sério e Ana consegue o comprometimento que sempre buscou. Contudo, tem dificuldades em se ajustar à opulência de Grey e manter sua independência (que convenhamos nunca teve desde o primeiro livro) e isso causa muitas brigas. Christian continua preso aos problemas da adolescência, apegado e punitivo. A história está cheia de drama e manipulação emocional. Ana continua sendo calada pelo sexo, que aparentemente é a única coisa que esses dois têm como ligação.

A conclusão é de que esta é uma trilogia fraca, com escrita ruim e repetitiva, cheia de momentos piegas e irritantes, diálogos retardados e zero a acrescentar a qualquer pessoa. Em muitos momentos pensei em abandonar os livros, mas persisti.

O segredo do sucesso está na velha fórmula “garota boazinha encontra cara complicado”. Na vida real, isso não funciona, mas acontece todo dia. Mulheres embarcam em relacionamentos sem futuro com homens complicados em detrimento de outro mais acertado na vida. Não estou generalizando, é claro. Muitas descobriram a verdade e estão libertas. Contudo, para algumas é estimulante pensar que vão dar jeito no cara, seja qual for o problema. “Farei com que ele me ame a ponto de mudar.” Isso é mais velho que o mundo e em todos os casos, a mulher busca um comprometimento que nunca acontece. Mas nos livros, a autora faz uma mágica e tudo é possível.
Infelizmente, mesmo sendo uma obra de fantasia, e apesar do protagonista ser controlador e subjugar Ana a todo instante, vejo posts pela internet consagrando o livro e meninas comentando que precisam encontrar um Christian Grey para si. Compreendo que em muitos casos, leitoras gostaram mais da parte do romance do que do sadomasoquismo, mas de qualquer forma, este é o homem que almejam?
Um ponto positivo é que mesmo sendo fraco, encontrei pessoas que nunca leram um livro na vida comprando a trilogia. Talvez pela promessa de que o livro iria revolucionar a vida amorosa. Fico feliz que tenham lido algo. Quem sabe tomam gosto pela prática?

O livro também estimulou a conversa sobre sexo, sobre aquilo que cada mulher permite ou não ser feito com seu corpo. Independente de como essa conversa teve origem, vejo como um avanço.
A princípio, logo me veio à mente a questão da violência contra a mulher. Então percebi que apesar de beirar uma apologia, o relacionamento dos dois é consensual. Contudo, é impossível ler uma frase como “Por que não posso sentir um pouco mais de dor pelo meu homem?” e não se irritar.
Espero que as leitoras (e leitores caso existam) lembrem que é apenas um livro, sobretudo muito bobo e não deve ser tomado como base para nada.
Pela primeira vez na vida, acredito que, neste caso, o filme pode ser bem melhor que o livro.