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Resenha | Demolidor Netflix

Herói retorna à sua casa em série da Netflix e em grande estilo.
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Após o fracasso de Demolidor em 2003 nos cinemas (aquele mesmo filme estrelado por Ben Affleck e Jennifer daredevil-netflix-red-suitGarner dos estúdios Fox, lembra?) passaram-se anos e os direitos retornaram para Marvel Studios, agora comprada pela Disney. O Demolidor (originalmente batizada de Marvel’s Daredevil) graças aos produtores Jeph Loeb, Drew Goddard e Steven S. DeKnight teve sua estréia com todos os treze episódios no dia 10 de abril no site Netflix.

Sim, amiguinhos, o programa é uma extensão do universo expandido da Marvel nos cinemas (MCU), assim como Agent Carter e Agents of S.H.I.E.L.D., mas filmado com qualidade cinematográfica como se fosse mesmo um filme de treze horas de duração . O fator preocupante era o quão interferente seria a empresa do camundongo mais famoso do mundo no programa, e a resposta é EM NADA! A diferença reside que a histórias da série do Homem Sem Medo bebe diretamente da fonte do quadrinhos quando passaram pelas mãos de Frank Miller, com um quê de Operação França, Taxi Driver e Um Dia de Cão.

O tom segue adulto, bastante soturno, neo-noir e violento com ótima densidade na construção de personagens,

apresentando uma defasagem consistente das produções da Marvel ao mesmo tempo em que há menções sutis e

Charlie Cox como Matt Murdock / Demolidor

Charlie Cox como Matt Murdock / Demolidor

outras bem diretas à esse vasto universo compartilhado. A batalha de Nova Iorque de Os Vingadores é uma das mais evidentes com objetos de cena ou em diálogos, além de Nobu como ninja vermelho que é parte da organização O Tentáculo, a destruição do Harlem causado pelo Hulk, a terra natal distante da velha Gao… Ah, tem a participação (ou quase) de Stan Lee numa foto como policial do mês.

O elenco encabeçado por Charlie Cox (Matt Murdock) é um ponto certeiro, apesar de breves momentos o ator parecer atuar no piloto automático.  Um dos grandes trunfos são os pequenos núcleos que ajudam no desenvolvimento da narrativa que tem por base as irregularidades dos contratos de reconstrução e empreendimentos em Hell`s Kitchen. A começar por Foggy Nelson interpretado por Elden Henson, o alivio cômico na série, que por sua vez mantém uma dinâmica divertida e interessante com a personagem Karen Page, vivida por Deborah Anne Woll. Ela tem uma interação de natureza investigativa com o jornalista Ben Urich (o ator Vondie Curtis-Hall) sobre a máfia e o investimento na cidade, tentando provar o envolvimento criminoso de Wilson Fisk. Aliás, há muita investigação policial com um toque de A Arte da Guerra e ótimos diálogos ácidos sobre natureza humana, moralidade e dever.

Outras duas ótimas presenças são do calculista de James Wesley, melhor amigo e subalterno de Fisk,

D'Onofio como Wilson Fisk. O futuro Rei do Crime.

D’Onofio como Wilson Fisk. O futuro Rei do Crime.

interpretado por Toby Leonard Moore bem vestido e polido, e do sarcástico e divertido Leland Owlsley vivido por Bob Gunton.

As interações de Matt e Claire Temple (vivida pela sempre competente Rosario Dawson), e Fisk com Vanessa Marianna (a atriz Ayelet Zurer) são um deleite à parte. O cerne de relacionamento do primeiro casal citado reside no cuidado e confiança, porém Matt se torna o homem que a cidade precisa não importa a que custo, mas potencialmente se tornando aquilo que Claire odeia e não acredita, o que tem grande poder destrutivo.

Para o segundo casal o elo atrativo e emocional é bem direto, criando uma relação de poder sobre o outro num curto espaço de tempo, impedindo uma maior densidade entre Fisk e Vanessa para a edificação de sua cumplicidade. Contudo, existe muita segurança na atuação dos dois, expondo uma química notável compensando essa falta.

As abordagens individuais de Murdock e Fisk são igualmente interessantes, verdadeiras bombas relógio. Este último encarnando magistralmente por Vincent D’Onofrio, numa das melhores atuações de sua carreira. Ambos querem o melhor para sua cidade, uma melhor vida, uma melhor relação com as pessoas, um melhor bairro.

Apesar de opostos são dois lados da mesma moeda e dispostos a fazerem de tudo para atingir este objetivo. Num

Deborah Ann Woll (Page) e Elden Henson (Foggy).

Deborah Ann Woll (Page) e Elden Henson (Foggy).

dos episódios, que revelou ser um breve drama de tribunal, Matt alega que a linha de distinção entre o Bem e o Mal pode ser tênue, às vezes borrada, e por vezes como pornografia: é identificada no momento em que se depara com que é visto, e isso serve de metalinguagem para o ritmo de acontecimentos da série. À exemplo disso o sétimo episódio com a chegada do personagem Stick e o seguinte sobre o passado de Fisk.

A interação de Murdock com o pai na infância é contada no ritmo certo em flashbacks. É notável a angústia e frustração de Matt quando criança ao lidar com a perda do pai de maneira violenta e a ausência de visão e ter de ‘enxergar’ o mundo por um novo viés através dos ensinamentos do mestre Stick. Porém, ainda no que diz respeito à flashbacks fica em aberto sobre mais fatos do passado do personagem título talvez esmiuçados numa segunda temporada.

A angustia e frustração na vida adulta estão em ser um advogado e tentar executar tudo dentro das questões morais da Lei quando isso por vezes é claramente inviável. O conflito interno o impulsiona agir à margem da Lei a fim de manter o equilíbrio da ordem, usar de quaisquer meios para justificar um fim e essa questão específica, esquadrinhada pela ótica religiosa e da fé, gera um dos melhores diálogos entre Matt e o padre Lantom no interior da igreja.

As ruas de Nova Iorque com belíssima fotometria noturna bem como a de design de interiores com vitrais e

Rosario Dawson como Claire.

Rosario Dawson como Claire.

silhuetas, o figurino, a ação estilizada e ao mesmo tempo nua, crua e suja, as atuações… Todos esses detalhes dão vida à ambientação criada por Frank Miller e desenhada por David Mazzuchelli na década de 80 com A Queda de Murdock, ou as influencias de Joe Quesada e Brian Michael Bendis, por exemplo.

Se você é fã do personagem e nunca viu este programa agora tem sua chance, a sua parada obrigatória para uma adaptação decente, impactante e honrada de Demolidor. Esta é uma série que apesar do selo Marvel foge da fórmula conhecida da sua zona de conforto e se dá o risco em ser um pouco sombria, como a DC numa espécie de ‘Nolanverse’. Em paralelo a mesma lógica inversa é atribuída à boa série The Flash se fazendo ser um pouco mais Marvel.

O Demolidor está um patamar acima quanto à séries sobre vigilantes e de investigação atualmente, e no futuro outros programas da plataforma Netflix serão lançados, como Jessica Jones, Punho de Ferro, Luke Cage (A presença da personagem Claire Temple é uma boa deixa para este em específico), e por fim a reunião dessa galera para Os Defensores. Independente de você, caro leitor, curtir ou não tais seriados uma coisa é certa… Vivemos em uma época especial para sermos aficionados neste vasto universo da cultura pop !

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