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Resenha | Distrito 9

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Resenha | Distrito 9

Ao se ouvir palavras como “favela” e “alienígenas” na mesma sentença, seria no mínimo inevitável associar um filme com tal premissa a uma produção questionável de categoria “B”. Talvez até fosse esta a intenção originalmente, mas isso passou bem longe da definição correta com a chegada desta ficção feita com os quesitos faltantes em Hollywood: esmero, respeito e criatividade.

A produção é assinada por Peter Jackson, diretor e pai da trilogia O Senhor dos Anéis, e bem, este é o elemento de maior destaque em todo o filme, que é constituído por nomes que não fazem parte do habitual rol de estrelas e cineastas da elite de Hollywood, mas que mesmo assim, se pagou em apenas três dias de exibição, justificando os 30 milhões de dólares investidos na produção.

Mas vamos começar corretamente e dar os devidos créditos a quem realmente merece, pois esta atração, apesar de muitos fatores que garantem 100% de entretenimento, se resume a dois nomes: o diretor e roteirista Neill Blomkamp, que podemos considerar até certo ponto um novato neste segmento, já que seus trabalhos de maior destaque até então eram créditos como animador de efeitos visuais em alguns episódios de séries de TV como Smallville, Dark Angel e outras. E a atuação do ator sul africano Sharlto Copley (também produtor e escritor por aquelas bandas) que comentaremos mais tarde.

Vamos ao filme.

Ficção com altas doses de realismo

Em Distrito 9, uma imensa nave alienígena misteriosamente paira sobre a cidade de Joanesburgo na África do Sul, o que foge do lugar comum das produções do gênero que precederam a esta, onde civilizações extraterrestres sempre buscam as grandes metrópoles americanas ou outras locações de igual importância espalhados pelo mundo.

O governo local decide então invadir a nave dada a falta de atividades dos visitantes, e se deparam com seres de aparência estranha que se assemelha a um camarão, o que termina por se tornar um adjetivo pejorativo dos locais ao se referirem às estranhas criaturas. Devido às condições críticas dos alienígenas cujo paradeiro nos céus de Joanesburgo permanece com um certo tom de mistério, a princípio recebem ajuda dos “terráqueos”.

É criado então o Distrito 9, local destinado somente para a permanência e contenção destes estranhos visitantes, o que faz sua relação se degradar com a população local ao estender por cerca de 20 anos um complicado e delicado relacionamento entre sulafricanos e ET’s.

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“Camarão é a mãe”?

O Distrito 9 então acaba por virar uma caótica sociedade e foco de uma agressiva criminalidade, que pode fazer estourar uma guerra civil entre a população, criminosos e alienígenas. Uma referência clara ao apartheid.

Para prevenção de mais problemas, Mikus van der Merwe (Copley), um funcionário da MNU (União Multinacional), entidade criada para cuidar do problema em foco, é nomeado para liderar uma força tarefa que visa entregar à comunidade alienígena, uma ordem de despejo para um outro assentamento distante.

Mikus, um funcionário simples, ingênuo e pai de família decide então por em prática os planos da MNU, cujo único interesse secreto visa a tecnologia bélica dos visitantes, mas que ao mesmo tempo não conseguem fazer uso da mesma, já que o arsenal alienígena é ativado somente pelo contato com o DNA de tais criaturas.

Durante uma blitz no Distrito 9, Mikus é infectado por uma substancia fruto da biotecnologia dos alienígenas. Seu corpo começa a sofrer horrendas mutações devido à exposição a tal substância, o que faz a atenção da MNU se voltar a ele ao invés dos “camarões”, já que se torna o único humano capaz de manusear o armamento alien.

Mikus Van der Merwe tem sua vida social e profissional destruída. Sozinho e foragido, ele sente as agruras da vida dos visitantes ao decidir também se refugiar no distrito 9.

Ele se alia a Christopher (denominação humana de um dos visitantes), responsável pela criação da substância que condenou sua vida, e promete colaborar com seus planos de fuga em troca de uma vaga promessa de cura. O que gera um vínculo de amizade entre estes inusitados personagens.

O filme tem uma narrativa diferente das demais produções do gênero e começa em tom documental com uma série de entrevistas com diversos pontos de vista entre especialistas em questões sociais, membros da comunidade sulafricana e até mesmo o próprio personagem (humano) central, Mikus Van der Merwe.

Tudo isso ao melhor estilo do cineasta e mestre do realismo nas telas Michael Mann. Mas de maneira súbita e ao mesmo tempo original, a narrativa se adentra de maneira visceral no submundo do crime em distrito 9.

Durante a transição de situações do personagem, mesmo com a horrenda aparência das criaturas de Distrito 9, o comportamento habitualmente humano diante de tudo que é desconhecido ou parcialmente não compreendido, nos faz refletir durante a exibição, quem são realmente os “monstros”? Nós ou eles?

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Já na parte técnica Distrito 9 se torna outra grata surpresa. Há muito não se via efeitos visuais e especiais serem utilizados de maneira tão sábia como nesta produção. Estes recursos voltam a ser um elemento chave para a desenvoltura da história, sem excessos e sem carência dos mesmos, mas na medida exata! Sem mencionar as cenas de ação que interagem de maneira perfeita com a esmerada pós produção.

A ótima direção e roteiro (co-escrito por Terri Tatchell) de Blomkamp, somente é equiparado pela brilhante performance de Sharlto Copley (sabiamente selecionado para Esquadrão Classe A como o Cap. “Mad” Murdock) como Mikus Van der Merwe.

O ator foi capaz de despertar a simpatia e o ódio do público através de uma nuance de características tão absurdas para um único personagem, de maneira coesa e verossímil no papel. De longe, na minha opinião, a maior atração do longa.

Distrito 9 pode ser considerado um reflexo do próprio comportamento humano ou simplesmente como uma ficção científica; como um filme de ação ou como uma produção independente com conteúdo.

Desde de Matrix (1999), não houve um filme do gênero com densidade e diversidade em suas várias camadas. Distrito 9 é puro entretenimento onde direção, fotografia, dramaturgia e pós produção caminham juntas sem conflitos e em perfeito equilíbrio.