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Resenha | Jogos Vorazes: Em Chamas

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Katniss, propositalmente, torna-se “imortal”

Antes do lançamento do primeiro filme da trilogia Jogos Vorazes, no ano passado, murmurava-se que seria fácil que os filmes fizessem um sucesso considerável. Afinal de contas, tratava-se de uma sátira de realities shows – que dominam a televisão– e que ao mesmo tempo era palatável para garotas adolescentes por conter um triângulo amoroso. Para os garotos adolescentes, continha uma temática violenta o suficiente – “inspirada”, digamos, em Battle Royale com um toque de tempero hollywoodiano.

Mas o filme em si chegou ao cinema e os preconceitos antes lançados foram ao chão. Tanto o primeiro filme quanto o segundo, Em Chamas, são adaptações de romances de Suzane Collins – como já é amplamente sabido pelo público. A história tem como palco o cenário futurista de Panam – onde um espetáculo de pão e circo, anualmente, toma dois adolescentes de cada um dos distritos subjugados à capital numa arena de vida ou morte – como forma de controle social. A primeira película nos introduziu Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), uma adolescente de 16 anos que se voluntaria como tributo no lugar da irmã. Ao início do segundo filme (spoilers, cuidado) ela é a atual campeã dos Jogos Vorazes (a tradução do termo é ruim, seria mais adequado “Jogos dos Famintos” ou “Jogos da Fome”)  e está presa numa farsa constante: há de viajar por todos os 12 pobres distritos junto de Peeta Mellark (Joel Hutcherson), seu suposto namorado e co-vencedor da 74ª edição dos jogos. Os tais jogos funcionam, de modo análogo, como um torneio de poker que você encontra na internet: todos contra todos de modo que o último que “sobreviver” é declarado o vencedor.

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Os Power Hungers

O grande problema de Em Chamas reside aí: o roteiro acaba sendo parecido demais com o primeiro. Ao ver que Katniss influencia a revolução dos distritos pobres com sua imagem, o Presidente Snow (Donald Sutherland), líder da Capital, tem a ideia de compor uma 75ª Edição dos Jogos Vorazes de modo diferente: apenas os campeões de edições anteriores poderiam participar. Como a poster child Katniss é a única mulher vencedora pelo 12º Distrito, acaba sendo obrigatoriamente uma das participantes. O objetivo do Presidente acaba sendo claro ao longo do filme: desmitificar a imagem de Everdeen, de modo que, se no primeiro filme ela não matou dolosamente ninguém, neste teria que matar para sobreviver – com efeito, sua imagem de heroína pura ante os distritos, inflamando uma possível revolta, iria por terra.

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Peeta Mellark (Joel Hutcherson)

A película tem outros problemas. Katniss, propositalmente, torna-se “imortal” –grosso modo – pelos organizadores dos jogos (de modo que todos o suspense sobre a morte ou não da personagem fica irrelevante). Não só: o filme acaba alternando de modo demasiado as sequências de drama e ação. Isso faz com que haja um desequilíbrio que não é interessante para o público.

Não só de problemas, contudo, vive o longa. Por trás de uma história aparentemente voltada para adolescentes, Em Chamas é uma grande crítica aos realities shows como um todo – difícil distinguir as cenas de Caesar Flickerman com o que vemos todo janeiro com Pedro Bial (com Big Brother) e ao modo que a sociedade está organizada economicamente (em modo de hipérbole, claro). Sumariza tal conceito uma festa, na qual os ricos da capital e Panem tomam remédios para vomitar e comer mais enquanto os 12 distritos subjugados aos mesmos passam fome.

No meio de tudo está Katniss, uma heroína como há muito o cinema não via. Complexa e humana ao mesmo tempo, interpretada por uma vencedora de Oscar. Enredo parecido com o primeiro filme ou não, a terceira película trará finalmente algo de novo – e o público pede por mais.

Veja o trailer: