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Resenha | Mad Max: A Estrada da Fúria

George Miller volta com o seu clássico oitentista repaginado para o século XXI.
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Há uma década foi estabelecido o continuo processo de reboots e remakes de clássicos, e de lá prá cá boas e más produções. O novo Mad Max está numa categoria acima! Sim, Estrada da Fúria é um espetáculo sensorial, como a experiência numa sala de cinema deve ser!

Tom Hardy assumindo o posto de Mel Gibson.

Tom Hardy assumindo o posto de Mel Gibson.

George Miller, a mente criativa deste clássico, não estava satisfeito somente com a trilogia original e após anos de tentativa finalmente traz vida a reimaginação da franquia, um novo ponto de vista. Com o roteiro certo aliado a tecnologia e grande poder imagético, o diretor apresenta Tom Hardy em boa atuação neste que possivelmente é o primeiro de três filmes.

Miller foge do óbvio estabelecido em filmes de ação. Aqui, para contar a história do nosso velho conhecido Rockatansky, nada de flashbacks ou explicações elaboradas e discursos sobre como o mundo mergulhou em degradação até se transformar nesse frenesi de sangue e areia. Com certo senso de anarquia, mas também de ordem no caos com as várias tribos, a sobrevivencia é o único critério a qualquer custo!

Max procura solidão, mas inadvertidamente tem seu destino cruzado com o da Imperatiz Furiosa (Charlize Theron), ela numa constante busca por redenção. Theron está em ótima atuação ofuscando os companheiros de cena. A trama é simples e focada, Furiosa foge da cidade-fortaleza em que estava, levando algo do interesse de Immortan Joe: um grupo de mulheres o qual são propriedade dele. Elas têm por função serem reprodutoras, provém o leite, são mantenedores da vida, simbolos quase etéreos em meio a sujeira por todo o lado. Tão logo o confronto é estabelecido na busca por reavê-las.

MM_Furiosa

Charlize Theron fazendo jus a Imperatriz Furiosa.

Miller segue além do simbolismo da maternidade e vida na vastidão arenosa estéril uma iconografia religiosa atribuída ao volante de um V8. As máquinas estão em alta velocidade e são cultuadas como sacro. Se os veículos são sagrados, Immortan Joe desponta como um destorcido messias com seus apóstolos prometendo o tão desejado Valhalla, o paraíso de todos.

Dando a si a esperança, Furiosa segue em direção ao seu verdadeiro lar o Vale Verde, uma espécie de Éden, e o faz pois acredita que alcançará a redenção que tanto deseja. Mas a esperança é um erro num mundo de fogo e sangue, e esse erro traz um desenrolar incessante e vertiginoso com explosões, tiros e lutas em altissima velocidade.

Tecnicamente falando a obra é impecável, há um aspecto mais retangular para as cenas de paisagem filmadas nos desertos da Namíbia e Austrália, especialmente desenvolvidas em belissimos tons de cores vibrantes, revelando um paramentro de grandeza da paisagem em relação aos carros que o cruzam na tela, todos diminutos.

A dinâmica entre Max e Furiosa é atrativa, forte. Max, homem de poucas palavras, se faz valer de olhares e gestuais. Furiosa é verborrágica, com carga de matriarca e abnegada, mas igualmente explosiva como herói título.

A estética do filme é minuciosa com os trajes, armas e lança-chamas, e máquinas de comboio chocando-se umas contras as outras levantando poeira. Tudo com um quê sadomasoquita e metálico. As relações entre personagens conseguem grande amplitude também, desde momentos mais ácidos aos mais brandos e inspiradores (emboras estes últimos breves).

Immortan Joe.

Immortan Joe.

Porque vale e muito a pena ver Mad Max? É visceral, tribal, rock and roll com senso de urgência. A areia batendo no rosto, o ronco dos motores de cada incrível máquina de guerra cruzando e capotando pelos desertos… Você sente a textura dos elementos em cena, torce pelos personagens, quer beber da pouca água para se refrescar num inferno de metal quente.

Enquanto Marveletes e Dcnautas caem no tapa pra provar quem é melhor e porquê, Mad Max chega calando a boca de ambas e ensinando como se faz um ótimo filme pipoca, grandioso, um espetáculo visual devido a paleta de cores, filtros de densidade, atuações consistentes e preocupado em transmitir uma idéia e visão, e não tão somente diversão.

Esse poder imagético carece atualmente em produções engessadas na fórmula blockbuster, e George Miller ensina para essa geração lente com pêra como se faz o cinema-arte sem deixar de ter um pézinho no filme pipoca.