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Resenha | Noé

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Épicos são sempre bons parâmetros para se contar estórias de grandes feitos, com lições de moral passadas através da notória jornada do herói. Eis que Darren Aronofsky (Réquiem Para Um Sonho) reúne um elenco de peso para uma nova e ousada visão do conto sobre o dilúvio em Noé.

Na premissa que remonta brevemente a Criação com belíssimas imagens, o diretor e roteirista Aronofsky inicia um discurso la_ca_0102_noahdidático que vai desde Adão e Eva, e seus três filhos: Caim, Abel e Set. E prossegue com os descendentes de Caim se espalhando pelo mundo com a ajuda dos Guardiões, os anjos caídos do Paraíso que, uma vez na Terra, tornam-se uma amálgama de rochas e luzes, passando aos humanos o conhecimento sobre o Criador e a vida.

Em paralelo os descendentes de Set também se ramificam como raízes de uma árvore na mãe Terra, mas a diferença entre as linhagens é a forma como ambas usam do conhecimento para sobreviver revelando um argumento bastante maniqueísta, o que não é demérito, uma vez que incorpora de forma simples, mas bem estruturada a narrativa.

As linhagens de Caim espalham a maldade e desordem pelo planeta, enquanto a de Set manteve-se de maneira íntegra até chegar na criança que é o último de sua linhagem, Noé vendo seu pai assassinado pelo antagonista Tubalcaim (versão mais velha e recorrente do filme vivido por Ray Winston).

Anos depois, com família constituída, o personagem título vivido por Russell Crowe é não só o chefe de família, mas bem como mentor seguindo uma filosofia sobre preservação da vida a partir da palavra do Criador, passando ensinamentos para os filhos.

Entra simbologia do recomeço de mundo pela água e não o fogo. A água purifica, separa o limpo do sujo, o injusto dos justos. Por isso o recomeço por esse elemento da vida pelo dilúvio, e não o término pelo fogo. Mas ainda assimla_ca_0102_noah o Homem seria castigado pelo que fez com o legado do Criador e não mais andaria na Terra, restando somente os animais para andarem livres.

Contudo, ao receber a visão de que o mundo ‘acabaria’, Noé concentra-se no trabalho da construção da arca e permanece dividido entre devoção pelo Criador e a loucura, desencadeando conseqüências de seus atos.  Ele terá de realizar a tarefa que lhe foi designado por ser um servo fiel.

A discussão virtudes versus defeitos de cada um dos membros da família é a primeira fragilização entre Naameeh (Jennifer Connelly) e Noé. Ela enxerga qualidades, já ele os defeitos, o que ressalta mais ainda a missão dele em terminar a arca e esperar com o tempo que cada um volte ao pó.

Isso torna a dinâmica entre Noé e a família bastante intensa, rendendo diálogos interessantes e fortes, bem usufruídos entre Russell e o impaciente filho Cam (Logan Lerman) como um tapa na face. Entretanto, apesar dos bons diálogos há uma quebra do dinamismo se comparada a primeira metade do filme, nada que atrapalhe a narrativa, porém é perceptível a mudança no ritmo.

Aronofsky nos faz contemplar a beleza de um mundo antigo através da geografia das locações da Islândia, numa belíssima fotografia combinada com os artifícios visuais já inseridos em seus filmes anteriores como o hip hop montage.

Usufrui também de artifícios como timelapse ou a computação gráfica na montagem da cena sobre a criação da vida no mundo, e apesar do filme ser baseado em um conto bíblico as imagens revelam um discurso darwinista, desde o primeiro ser unicelular até a vida no Éden.

Darren Aronofsky e Russell Crowe acreditam que o filme necessita ser desprendido de um discurso exclusivamente religioso, compartilhando a experiência humana, o que faz por revelar o traço tênue entre o certo e o errado, sobre se os meios justificam os fins.

O filme Noé discursa sobre ódio e amor, culpa e perdão, vingança e redenção, sobre morte e vida a ser preservada. Caro leitor, concordando ou não pela forma abordada do tema, um impacto será causado sendo difícil permanecer indiferente, até para os mais céticos, devido a esses valores universais que nos tornam tão frágeis ou fortes, mas acima de tudo humanos.