Um site que não é lá.

Resenha | O Espetacular Homem-Aranha por Efraim Fernandes

3

Quando anunciado que Sam Raimi e companhia saíram de cena e que um reboot era o caminho a ser seguido, uma legião de fãs mostrou-se decepcionada por não haver uma quarta aventura, mesmo com a ‘suruba’ mal aproveitada no capítulo que encerra a trilogia.
Apesar de todo ceticismo do público, Stan Lee mostrou animação com o direcionamento que as coisas estavam por seguir. A pergunta que não quer calar é… O filme faz do personagem título ESPETACULAR? Bom, nem tanto… O resultado todo pode e deve ser conferido em O Espetacular Homem-Aranha que, entre erros e acertos, certamente dividirá opiniões cumprindo a missão de introduzir um novo rumo sem calcar os eventos cronológicos das revistas.
Dentre todos os heróis, Peter Parker tem uma característica singular para época em que fora criado há cinco décadas por Stan Lee e Steve Ditko. Era um estudante franzino de Nova Iorque, um adolescente ordinário, sem namorada, sem grana, que quer uma vida pacata. É quando por uma ação do destino é jogado à uma esfera de proporções impensadas, incríveis, espetaculares.
O que realmente o difere de vários outros heróis é que mesmo tendo grandes poderes, que obviamente lhe rendem grandes responsabilidades, Parker não era invencível! Ele não podia voar, não era de aço, errava nas próprias escolhas e era um verdadeiro saco de pancadas mesmo após ser picado pela aranha radioativa, já que a gama de vilões é extensa. Mas, ainda que tardio, no final ele prevalecia de pé.
Um cara comum prestes a trilhar a jornada do herói, com vilões tão incríveis o qual tem de salvar a cidade. Mais do que isso, o Aranha nas HQ’s era um reflexo direto da cidade de Nova Iorque. Quando ele ia bem, a cidade ia bem.
Em paralelo, como se já não tivesse problemas o bastante, faz-se preciso lidar com as constantes provocações de valentões da escola, se aventurar com o primeiro amor e entregar o trabalho do exame final da escola. Parker é a projeção dosada da angústia juvenil e a pressão familiar e social em se tornar um jovem adulto. Soa muito à la John Hughes pra você, apesar da criação do personagem ter sido na década de 60?
Mas como não se corromper quando tamanho poder é dado? “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Essa é a questão chave que faz Peter Parker/Homem-Aranha ser o que é: ter sido criado por Ben e May Parker.
Vemos um pouco desses ‘desafios sociais’ ainda na primeira metade da fita junto com o momento da descoberta dos poderes do novo filme. Por ter dirigido 500 Dias Com Ela, Marc Webb soube dar o tom certo nos diálogos e envolvimento afetivo entre Parker (Andrew Garfield) e Gwen Stacy (Emma Stone).
E por falar em Gwen aqui a encarnação de Stone é bem diferente da abordada em Homem-Aranha 3, interpretada por Bryce Dallas Howard. A química do casal está ótima com diálogos que contrabalançam a ação inovadora (em primeira pessoa por vezes) e adrenalina ilustrada nos saltos em prédios que refletem o uniforme do herói, os planos vertiginosos da cidade, os helicópteros da polícia, os arranha-céus e guindastes, e o correr em slow motion por terraços num momento clímax de bravura.
O roteiro, de James Vanderbilt, devidamente destaca a loirinha como o primeiro amor do herói e as complicações que o alter-ego do jovem representa na vida afetiva e familiar dela. As rusgas entre o Capitão Stacy (Denis Leary) e a personagem de Garfiled começam como uma leve e divertida alfinetada, mas terminam como uma bola de neve sobre o vigilante mascarado estar fazendo o trabalho da polícia de Nova Iorque.
Mas uma coisa é importante salientar. Embora não chegue realmente a prejudicar o andamento da história, o ritmo em que Parker explora as habilidades aracnídeas é um pouco desconfortante. Quem sabe uma cena de escalada ou movimentos acrobáticos de maneira mais minuciosa pudessem ser representados? E fica muito ligeira a transformação do dr. Curt Connors (Rhys Ifans) que careceu de uma edificação mais intrigante. Ele injeta em si o soro réptil, depois o quadro muda para outras cenas, não demora e retornamos já vendo o braço por completo.
A liberdade do roteiro, pra não dizer atitude ousada, é acentuada em Connors quando vira o Lagarto na adaptação de Vanderbilt. Nas comic books é um ser irracional e agressivo, mas na encarnação de Ifans a criatura ainda porta a função cognitiva de Curt, que justifica os fins do cientista. Questão interessante, mas bastante divergente e perigosa.
A dita ‘história não contada’ é o ponto certeiro da produção, envolvendo o desaparecimento dos pais de Parker. Webb disse: “Eu penso que nós já vimos a origem do Homem-Aranha antes, mas não a origem de Peter Parker”. Em contraponto este mote deixa mais perguntas ao decorrer dos 136 minutos do que traz evidentemente respostas concretas (fiquem atentos à cena pós-crédito), o que certamente vai ser esquadrinhado nas continuações.
Outro ponto positivo é a amarra emocional de Pete ao Tio Ben. É quase inevitável não comparar tal característica a da franquia anterior. Andrew dá ao personagem um prisma emotivo bastante denso, diferente da abordada por Tobey Maguire, mas ambos com suas qualidades, certamente. Talvez os saudosos à obra de Raimi sintam falta do artifício do alívio cômico dos coadjuvantes, já aqui bastante salientado pelo sarcasmo das palavras e gestual de Garfield.
A forma como consegue o uniforme torna-se uma sacada esperta. Tudo mais bem elucidado nesta versão, principalmente a criação do atirador de teias desvinculando-se de vez do conceito da teia orgânica (retratada anteriormente nos cinemas) e aproximando mais ainda das obras de Lee e Ditko.
Esta aventura é um termômetro, um abre-alas que promete trazer muitas revelações futuras. E quem sabe de acordo com as bilheterias não vejamos o Homem-Aranha, agora encarnado por Andrew Garfield, sendo recrutado por Nick Fury em uma das possíveis seqüências de Os Vingadores?
Afinal, Avi Arad (produtor dos filmes do aracnídeo) afirma que tudo é possível à respeito de um crossover, mesmo que haja decisões contratuais, uma vez que o amigo da vizinhança está nas mãos dos produtores da Sony. Estes últimos e os executivos da Disney/Marvel, responsáveis pelos Maiores Heróis da Terra, já estreitaram ligações (A torre Oscorp seria posta digitalmente num plano aberto da cidade de Nova Iorque em Avengers, mas que por uma questão aparente de cronograma teve de ficar de fora).
Contudo, o produtor Jeremy Latcham diz que a possibilidade de um cruzamento de franquias é incerta. “Não sei, acho que eu não tenho uma resposta boa pra essa questão. Não há muita chance. Mas com o sucesso de Os Vingadores e, se tudo der certo, o sucesso também de O Espetacular Homem-Aranha… Talvez as pessoas comecem a se empolgar com essa idéia. Quem sabe? Mas neste momento meu instinto diz que isso não acontecerá”
Daqui pra frente basta nós desejarmos sorte ao que está por vir na nova prolífica franquia deste que é um dos heróis mais queridos do cinema e quadrinhos. A trilogia de Sam Raimi com Maguire e Kirsten Dunst sempre terá um lugar especial em nossas memórias, corações e prateleiras ao lado do aparelho de Blu Ray ou DVD player, mas chegou a hora de novos caminhos.

Nota 8,5 (Go, Spidey, go!)

  • Caroline

    Estou ansiosa para assistir o filme e já estou torcendo para acontecer um crossover (homem aranha e os vingadores.. Tomara!). Quanto a mudança de atores, espero conseguir acostumar e gostar do filme.

  • Boa resenha.

    Ansioso para assistir também.
    E torcendo para rolar com Avengers.

    Não sentirei falta do Maguire; muito bocó, não me convencia. Fora que ele não parece novo.

    E dando graças aos céus que a Mary Jane da Kirsten Dunst ralou; ficou muito aquém do que o furacão Mary Jane é.

    Curti o disparador de teia.

    P.S.: Os únicos heróis que não podem misturar são os X-Men. Não tem nada a ver misturar o universo mutante que é totalmente particular com os outros heróis da Marvel.

    O foco deles é outro.

    • Efraim

      A proposta do filme do Marc Webb não é a mesma da trilogia de Raimi… São encarnações diferentes, mas q se complementam e mostram visões distintas do mesmo herói. É perigoso um pouco comparar os dois, embora que inevitável.

      Arrisco chutar q a Gwen morre, a M.J. aparece em algum momento e pode rolar um triangulo amoroso com a chefada da Felicia Hardy… Valeu pelo comentário!