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Resenha | O Livro Perigoso para Garotos

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Os pais e, quem sabe, avós de muitos de vocês podem conhecer uma poesia que aparecia em uma edição antiga do Mundo da Criança (uma enciclopédia em vários volumes dirigida ao público infanto-juvenil de, digamos, mais de vinte anos atrás, crianças) e que dizia:

“De que são feitos os meninos?
Rãs, caracóis e rabinhos pequeninos.
Disto são feitos os meninos”.

Será que é disso mesmo que meninos são feitos? Hoje em dia? Podia arriscar uma atualização do poema e dizer que meninos são feitos de teclados, motores, monitores e cards, mas tenho medo de generalização e estereótipos. Apesar disso gosto de pensar que o mundo masculino é feito, mesmo hoje, de uma dose sensacional de aventura. Mais do que o feminino. Fato (Não vou entrar aqui naquela discussão – válida e importantíssima – sobre os papeis femininos e masculinos, mas vamos ficar combinados assim).

Os irmãos Conn e Hal Iggulden

Os irmãos Conn e Hal Iggulden, autores de O Livro Perigoso para Garotos, devem concordar com essa minha suposição. Ou então percebem que essa aventura toda devia estar mais presente na vida dos meninos modernos, porque é disso mesmo que é feito seu livro: aventura e curiosidade infinitas.

Eu me encantei pelo livro quando o vi exposto em uma livraria. Percorri rapidamente as páginas, dei uma bela olhada no índice e prometi que o compraria quando meu filho, então bebê, estivesse maiorzinho. Agora que nos reencontramos, O livro… e eu, encantei-me em primeiro lugar com o capricho da edição, com as folhas de guarda preenchidas por mapas de terras imaginárias, imagens de piratas e dinossauros. Convite à aventura, sem dúvida alguma. Logo depois de uma bonita epígrafe os autores explicam sua proposta na apresentação “Eu não tinha esse livro quando era garoto”: ora, eles procuraram compilar no volume todos os conhecimentos que gostariam de ter à mão em sua infância – e que consideraram indispensável para um menino hoje em dia.

O que é tão importante para um garoto, afinal? Do que ele deveria ser feito? Uma palhinha: casas na árvore, jogos, astronomia, carrinhos de madeira, insetos, dinossauros, experiências científicas, códigos secretos, utensílios básicos (como agulha e linha, canivete, lápis e papel, bússola, curativos e outros) para grandes aventuras (só eu me lembrei da canastrinha da Emília, do Sítio do Pica-Pau Amarelo?), música, piratas, mapas, gramática (opa, por que não?), Literatura. Meninas. E muito mais.

Percorri o livro todo de olhos brilhando. Foi difícil parar e eu me vi, mesmo meninA, passando uma boa parte da infância indo e voltando pelas suas páginas. Aquela onda de saudosismo ao qual a gente vai se acostumando e recorrendo conforme o tempo passa me invadiu quando cheguei ao capítulo, ainda no comecinho do livro, que fala sobre as Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Era bem esse o tipo de coisa que me deixava com a cabeça voando no tempo e no espaço quando eu virava as páginas das enciclopédias da casa dos meus pais. Era o tipo de conhecimento que pra mim era tão indispensável. Ele me serviu para conseguir um bom emprego, dinheiro e fama? Não, ajudou-me a criar asas e a viajar sem sair do lugar.

Amyr Klink: presente na versão brasileira

Uma das ótimas surpresas da versão nacional de O livro perigoso para garotos é a inclusão de conteúdos específicos para garotos brasileiros: então o jovem leitor vai conhecer batalhas como das Termópilas (que a meninada com pais menos restritivos já conhece porque já viu o filme 300, de qualquer forma uma bela versão para o “evento”) e de Waterloo e também Guararapes e Canudos; vai ler sobre a exploração do Pólo Sul, mas também sobre o trabalho dos irmãos Villas-Bôas e sobre as viagens de Amyr Klink, porque nem só de Primeira Missa e de figurões fardados muito sisudos, com bastos bigodes, vive a História do Brasil.

Os capítulos sobre música e literatura também vieram com ótimas adições, embora eu tenha sentido uma falta grande de Stevenson e seu A Ilha do Tesouro, de Júlio Verne, João Carlos Marinho e de Marcos Rey, verdadeiros clássicos. A lista de filmes peca, na minha opinião, por incluir só um dos clássicos d’Os Trapalhões (Os Trapalhões nas minas do Rei Salomão), enquanto podia incluir pelo menos mais um dos filmes mais antigos da trupe, e por não indicar toda a série Indiana Jones e nem Os Goonies. Mas gosto de imaginar que pais com boas lembranças de infância e adolescência vão saber “engordar” todas essas listas, que de qualquer forma são sensacionais.

Minha maior queixa a respeito de O livro perigoso para garotos: cadê a mitologia? Na verdade estranhei quando cheguei até duas páginas dedicadas aos Dez Mandamentos. Voltei ao índice pensando “opa, devo estar já com um soninho, está tarde e eu devo ter pulado a parte de mitologia”. Não compreendi mesmo a presença desse fragmento específico de história bíblica e lamentei bastante a ausência de qualquer mitologia no livro.

Cena do filme ABC do Amor

Qual é o garoto que não se encanta com mitos gregos, africanos, egípcios, chineses, astecas? Não se trata de experiência religiosa, nem é essa a proposta do livro (opa, por isso mesmo eu estranhei os Dez Mandamentos perdidos ali no meio) mas do contato com valores, com heróis e com situações que interessam e, pela minha experiência, eletrizam. Quando trabalhei como professora e como estagiária em biblioteca pude ver que livro de mitologia, qualquer que fosse ela, não esquentava prateleira. Uma pena mesmo essa lacuna, tenho muita vontade de poder perguntar sobre isso aos autores.

Outro comentário precisa ser feito: a parte dedicada a “Meninas” investe um pouco naquela ideia de “mulher é bicho estranho”, menciona aquela história de ouvir “enquanto ela fala de si mesma”. Bom. Foi uma impressão muito pessoal mesmo. Eu acho que prefiro colocar esse capítulo na conta do bom humor. Tentei pensar em exemplos adoráveis de meninos e meninas que se encontram e se estranham um pouco (Meu primeiro amor, ABC do amor, título lastimável para Little Manhattan, uma graça de filme) pra ver se passava a impressão meio estranha sobre o assunto. Funcionou um pouco. Gostei, na verdade do conselho “trate-a com respeito”. Nem tudo está perdido, é mesmo uma lição a ser aprendida desde cedo.

O Livro Perigoso para Garotos tem sua versão brasileira pela Editora Record

A verdade, no fim das contas, é que compilar tantos conhecimentos em um volume só deve ter sido tarefa difícil, apesar de divertida. Os irmãos Iggulden prometem ajudar a fazer a infância da molecada valer a pena.

Grande promessa, grandes perspectivas, e tenho fé: O livro perigoso para garotos tem tudo pra ser não aquele livro que é devorado ou só folheado e vai amarelar na prateleira até finalmente ser doado pra um primo mais novo ou pra uma biblioteca de escola, mas pra ser companheiro constante e fiel. De meninos e meninas.

E para finalizar, gostaria de agradecer ao amigo Jadir Brito, que também leu o livro e ajudou em meu texto dando seus palpites.

  • Beatriz

    Já pensei em comprar esse livro pros meus filhos; achei a ideia de compilar o 'mundo masculino' num volume só sensacional. É a cara da molecada traquina.

  • Oli

    Putz!! Lá vai eu gastar meu dinheiro de novo! hehehe Cara! Conn Iggulden! Com certeza por uma ótima causa!

  • Já está na minha wish list! Esqueceu de mencionar que também temos a versão feminina, "O Livro das Garotas Audaciosas". Quero os 2.