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Resenha | A Sombra do Vento

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“Os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro”

O livro “A Sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Zafón, foi publicado no Brasil pela Editora Suma após ser um sucesso de crítica e vender mais de 6,5 milhões de exemplares ao redor do mundo. Ele é um daqueles que você começa a ler e deseja que nunca mais acabe: a linguagem poética e a trama sensível se unem de forma magistral para criar um dos clássicos definitivos do Século XXI.

Toda a história se passa em Barcelona, em 1945. Nessa maravilhosa cidade, Daniel Sempere, filho de um livreiro, é levado a uma biblioteca secreta repleta de obras esquecidas pelo tempo. Nela, recebe a oportunidade de escolher um livro para si dentre os inúmeros disponíveis.

O selecionado é o romance homônimo “A Sombra do Vento”, escrito por um autor chamado Júlian Carax. Ao chegar em casa, Daniel praticamente devora as páginas e termina de lê-lo em menos de um dia. Entretanto, quando tenta encontrar o resto do acervo do autor, ele se dá conta de que alguém está destruindo todos os livros escritos por Carax e que a sua cópia pode até mesmo ser a última em existência.
Incapaz de deixar de lado o que pode ser a história de sua vida, Daniel se vê envolvido em uma busca épica pelas ruas de Barcelona para tentar desvendar os segredos relacionados ao enigmático e elusivo Carax e entender os diversos paralelos entre as suas vidas.

Durante a jornada somos introduzidos a vários personagens carismáticos e memoráveis que ajudam o herói. Os melhores são Clara Barceló, que ajuda-o a descobrir as primeiras pistas e por quem ele inevitavelmente se apaixona, e Fermín Romero de Torres, que se torna o principal companheiro do protagonista e cujo senso de humor é o maior responsável pela maioria das inúmeras observações sagazes feitas durante

o livro.
As mais de 450 páginas simplesmente não são suficientes para aplacar os sentimentos que o autor desperta em nosso âmago e só tenho a agradecer o fato da obra eventualmente ter se transformado em uma tetralogia.

O escritor, Zafón, captura nossa atenção desde o início com uma linguagem que é poética e erudita. O gênio literário David Foster Wallace recomendava que sempre acompanhássemos a leitura com um dicionário próximo a mão e nesse caso, ainda que a prosa não seja inescrutável, a sugestão se encaixa perfeitamente.
Assim como vale a pena ler Tolkien (da série Senhor dos Anéis) acompanhado de alguma espécie de guia arbóreo para entender a descrição da flora avistada durante a viagem da Sociedade do Anel, um dicionário acompanha bem este livro para que realmente se tenha noção de quão belas e profundas são as escolhas de palavra e as imagens que elas evocam em nossa mente.

Todo o cenário em que a trama se desenrola transborda das páginas através da escrita do autor e simplesmente não é possível fazer uma resenha completa de “A Sombra do Vendo” sem falar um pouco sobre Barcelona, onde toda a ação ocorre e lugar ao qual o livro está intrinsecamente conectado.

Apesar de atualmente ter se desenvolvido ao ponto de se tornar uma grande metrópole europeia e um importante destino esportivo – com competições que vão desde o futebol do Barcelona FC no Camp Nou, os Jogos Olímpicos de 1992 e até mesmo um dos maiores eventos de toda a história do poker na Europa – a essência de Barcelona é a mesma e ela continua despertando nos leitores uma vontade enorme de percorrer os mesmos caminhos misteriosos do protagonista.

O desejo é tão comum que existem até mesmo tours guiados baseados no livro. Neles, o guia apresenta um breve sumário da trama e depois leva os viajantes por um passeio comentado através de praticamente todos os lugares mencionados na obra, incluindo as localizações fictícias da livraria do pai de Daniel e da biblioteca secreta.

Todos os fatos, do mesmo título ser utilizado por Zafón e por Carax, passando pelos paralelos narrativos entre os personagens principais e até mesmo a existência de tours na vida real, conspiram para tornar o romance uma das maiores “histórias dentro de uma história” existentes e certamente um dos mais deliciosos e intrigantes mistérios já escritos.

O principal tema de “A Sombra do Vento” ecoa alguns dos maiores ensinamentos de Carl Sagan e apresenta-nos uma grande homenagem à experiência atemporal proporcionada pela leitura ao mesmo tempo em que discorre sobre os enormes custos envolvidos na preservação da memória.

Este definitivamente se tornou um dos meus livros preferidos e gostaria de recomendá-lo a todos que queiram embarcar em uma aventura magnífica proporcionada pela escrita impecável de um dos grandes autores contemporâneos. Abaixo, algumas das Citações Favoritas.

“Enterrado na luz de cobre que projetava o abajur, penetrei num mundo de imagens e sensações que jamais havia conhecido. Personagens que pareciam tão reais como o ar que respiramos arrastaram-me por um túnel de aventura e mistério do qual eu não podia escapar. Página por página, deixei-me levar pelo sortilégio da história e seu mundo, até que o hálito do amanhecer acariciou minha janela, e meus olhos cansados deslizaram pela última página. Estendi-me na penumbra azul da madrugada com o livro sobre o peito e escutei o som da cidade adormecida pingando sobre os telhados salpicados de púrpura. O sono e a fadiga queriam me derrubar, mas eu resistia a entregar-me. Não queria perder o encantamento da história nem dizer ainda adeus aos seus personagens.”

“Na altura em que a razão é capaz de compreender o sucedido, as feridas no coração já são demasiado profundas.”