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Resenha | Tropa de Elite 2

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Para começar tenho duas coisas a dizer. Sylvester Stallone é uma mocinha. E Tropa de Elite 2 estragou meu ano com cinema. Nenhum filme ao qual eu assisti ou vou assistir supera o que vi ontem no cinema.

Já havia ouvido comentários de pessoas que haviam assistido Tropa 2 no cinema, todos positivos, e não pude esperar mais, apesar do inferno que é assistir filme no dia da meia entrada.

O filme começa com uma cena muito bem construída, no mesmo estilo do primeiro longa, em que um evento desencadeia uma gama de acontecimentos entrelaçados, amarrados de uma tal maneira pela edição que às vezes deixa o telespectador sem fôlego. Para quem gosta, como eu, foi bom demais.

Para resumir, o Capitão André Matias, sob o comando do agora Coronel Nascimento, se precipita durante uma ação em Bangu I e causa uma matança de presos, testemunhada por Fraga, um ativista dos direitos humanos (e que é o novo marido da mulher de Nascimento). Isso causa a saída de Nascimento e Matias do BOPE, para destinos diferentes.

Pela aprovação da população com relação ao que houve na cadeia, Nascimento é promovido a sub-secretário de segurança do Rio de Janeiro, para contrariedade do Governador e do Secretário de Segurança. Já Matias vai para um batalhão repleto de policiais corruptos, aparentemente liderados pelo Coronel Fábio. E chega de contar o filme.

A partir daí, o campo de batalha de Nascimento muda, e a primeira vítima que tomba é a sua própria inocência. Quando o coronel se dá conta de que os traficantes eram “uns juvenis” perto da verdadeira quadrilha, é angustiante ver o sofrimento do ex-caveira, bem retratado na desolação do seu apartamento vazio.

Aliás, é assim que o sub-secretário se sente: sozinho, nadando em meio a um enorme cardume de tubarões. Com o fim dos traficantes e a ascenção das milícias constituídas de policiais corruptos e apoiadas por políticos ávidos pelos votos das comunidades, o engravatado Nascimento vai se sentindo cada vez mais de mãos atadas pelo “sistema”.

E para piorar, o ex-BOPE tem que lidar ainda com o crescimento de seu filho, dividido pelas diferenças entre seu pai e seu padrasto, diametralmente opostos.

Aqui eu acho que cabe um parênteses com relação ao elenco, que, com pequenas exceções, é simplesmente genial. Wagner Moura como Nascimento põe o filme debaixo do braço em vários momentos. Para apontar as baixas (sem trocadilhos), eu indicaria André Ramiro, o Matias e Pedro Van Held, o Rafael, filho do Capitão Nascimento.

De Ramiro eu esperava mais, depois do primeiro filme, em que ele já não tinha me convencido. Imaginei que talvez o rapaz fosse frequentar umas oficinas para aprimorar o ofício, mas mais uma vez sua interpretação me soou artificial demais.

E Van Held foi simplesmente apagado, sem brilho algum, sendo sempre salvo em suas cenas pelo brilhantismo de Wagner Moura, Maria Ribeiro ou Irandhir dos Santos, uma grata surpresa.

E se para apontar dois pontos negativos eu fui rápido no gatilho, dois pontos positivos podem ser dados de bate-pronto: André Mattos e Sandro Rocha. O primeiro estava impagável em seu papel de apresentador de programa de TV estilo mundo cão / (“barra”) político corrupto, fazendo a platéia rir em pelo menos duas vezes, fora a atuação como deputado. Já Sandro Rocha, o bonachão em Tropa 1 (“Pra rir, é preciso fazer rir”), fez um contraponto de caráter ao Nascimento incrível no papel do Major/líder miliciano Rocha.

Como diria Argentoni: “simplesmente fantástico”.

E o filme vai se desenrolando em mais de duas horas, que eu simplesmente não vi passar. E o final, claro que não vou contar, pois sempre tem um desavisado que lê uma resenha sem esperar spoiler, mas eu senti como um tapa em minha cara, dado com vontade.

O diretor José Padilha já havia dito que queria seu filme como fonte de discussão sobre a segurança pública, em pleno ano eleitoral. Alguns críticos acharam que o longa apresentou poucos argumentos para trazer o assunto à baila, simplificando demais a trama em torno da corrupção.

Mas o filme traz muito o que pensar sim. Eu mesmo cheguei em casa tenso e tive que ler um livro sobre Guerra para relaxar (sem brincadeira). Mesmo agora ainda estou frenético com o que vi na telona ontem.

A questão da Segurança Pública, embora não tenha sido totalmente mostrada, como foi assinalado, parece trazer um raio-X da espinha dorsal do problema todo, e joga “a pica na mão do aspira”, que no caso é o espectador, que se vê na tarefa de escolher qual papel assumir, o que fazer em meio a um panorama que parece fechar as paredes sobre todos.

E se te faz pensar, é lógico que te faz discutir.

Todo mundo quer encarnar um Nascimento e fazer e acontecer tanto no chão da favela quanto numa assembléia legislativa predominantemente corrupta ou num gabinete em que geralmente os funcionários estão sempre engessados pelos interesses dos chefes do executivo. Ou mesmo ser um deputado Fraga e apontar as mazelas do legislativo. Mas não podem. E se não podem, como contribuir para a situação melhorar, dentro da sua esfera de atuação?

Para mim, começa aí a discussão.

Outro ponto que observaram sobre a direção de José Padilha, que foi dita como muito dependente da narração de Nascimento para o desenvolvimento da trama, devo lembrar que o filme é feito para todo tipo de gente, com maior ou menor capacidade para interpretar imagens, que pagam o mesmo valor de ingresso, e merecem, sim, estar no mesmo patamar de consideração do condutor da narrativa.

Enfim, como eu já disse no começo, Tropa de Elite 2, na minha opinião, foi o melhor filme do ano de 2010, seja no âmbito nacional ou internacional. Fazia tempo que eu não saía da sala de cinema tão confuso e com tantas coisas para digerir ainda.

Não sei se cabe um Tropa 3, mas se vier, só tenho uma coisa a dizer: em José Padilha eu confio.

Nota: 10

Nota: 10