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Resenha | O Homem de Aço (Man of Steel)

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Zack Snyder é um diretor que sabe como ninguém trazer sua “visionária” ideia para filmes de ação. Aclamado por milhões de fanboys por ter dado vida aos personagens de Watchmen e 300, o cineasta tem um jeito particular de retratar ótimas cenas de pancadaria num slow motion impactante e poético.

Agora, após o tropeço que foi Sucker Punch, ele retorna com uma ótima adaptação de quadrinhos para os cinemas em O Homem de Aço (Man of Steel). Porém, o estilo visual que lhe deu a alcunha de “visionário” dá lugar à incorporação de influências de outros cineastas.

Sucker Punch - A pataquada

Sucker Punch – A pataquada

Em 2013, são comemorados os setenta e cinco anos de existência do personagem, avistado através dos tempos em várias plataformas coexistentes: filmes, seriados, animações, games, e claro, os quadrinhos. Vários contos existem sobre a origem e destino deste que é o primeiro herói, molde para a criação de muitos outros.

Está enraizada na iconografia sua origem extraordinária, um discurso bem marcante sobre o maniqueísmo, luta pela verdade, justiça, bons costumes e o modo americano de vida. Contudo, no filme, apesar de ter a América como lar, Kal-El é filho de dois mundos, e logo, cidadão da Terra.

É aí que entra o roteiro de David Goyer e Chistopher Nolan construindo e (porque não?) desconstruindo esse marco da cultura pop mundial, alterando e paralelamente resgatando o cânon com as referências filosóficas e messiânicas do super herói. Para tal, fiquem atentos aos planos filmados: o vitral no interior da igreja em que Clark Kent conversa com o padre, a idade revelada do personagem título e a postura em forma de crucificação quando está flutuando no espaço. Não, qualquer comparação com a vida de Cristo não é mera coincidência, tudo desenvolvido pelas mentes de Jerry Siegel e Joe Shuster, os criadores do herói.

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Kevin Costner – Papai Kent

A essência do que o torna Superman está mais viva e o fator fundamental para isso é a criação terrena que moldou seu caráter, mostrando ao pequeno kryptoniano que há espaço para a bondade e esperança no mundo. Tal trabalho, pesadíssimo (quase um fardo), recai sobre as mãos do casal Jonathan e Marta Kent (Kevin Costner e Diane Lane, respectivamente em ótimas atuações).

Snyder acertou a mão ao filmar com tremenda sensibilidade, sem ser brega, a vida da família, com pores do sol no interior do Kansas, a retratação da difícil infância, a dificuldade de focar os sentidos super aguçados e o bullying sofrido quando o personagem título ainda era um infante.

A garotada que curte os conselhos do Tio Ben nas redes sociais pode achar Jonathan Kent bastante paternalista e preocupado, com um discurso “programado” sobre responsabilidade, formação de caráter e escolha do homem que Clark deve ser. Porém, tais assertivas são absolutamente necessárias.

Há bastante densidade emocional entre Diane, Kevin e Henry Cavill quanto a temas como insegurança e rebeldia juvenil. Quem já não teve discussão com os pais quando adolescente? Não se enxerga Cavill personificando um alien, mas sim o lado mais humano que ele possui, evidenciando o sentimento de solidão, incompreensão e raiva por sempre ter de dar a outra face a tapa.

A relação com a intrépida jornalista investigativa Lois Lane tem seus momentos, embora tudo muito fugaz, sem realmente uma maior densidade no âmbito amoroso. Mas a atuação de Amy Adams convence.

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Lois, a Lane

Uma marcante mudança quanto à origem foi explorar mais sobre o planeta Krypton numa belíssima e empolgante introdução, algo não tão esmiuçado nos cinemas. Uma sociedade de cultura milenar, muitíssimo avançada tecnologicamente, onde seus membros são criados geneticamente e condicionados para tarefas específicas, mas que segue ainda assim fiel a uma estrutura hierárquica de realeza, quase medieval.

Isso é imageticamente retratado com estruturas metálicas e cabos de força (que lembram o anime Ghost In The Shell e consequentemente a trilogia Matrix), além da ambientação de salões e laboratórios soturnos de Krypton. Aliás, esse fator lembra, no que diz respeito à fotometria, o visual sombrio da trilogia Batman, de Nolan. Essa é a primeira grande cisão com relação à versão imortalizada por Richard Donner em Superman I.

Outro ponto de destaque ainda nos primeiros minutos é o discurso de Jor-El (Russel Crowe, excelente no papel) sobre o destino do pequeno Kal, em tom profético à Lara (Ayelet Zurer): “Ele será um excluído, mas um deus entre terráqueos”, em referência à minissérie em quadrinhos O Legado das Estrelas, de Mark Waid.

A motivação do antagonista General Zod (Michael Shannon incrivelmente explosivo) e comparsas não é de graça. Querem o filho da Casa de El, já que ele seria fruto de heresia, por ter nascido sem ter sido projetado geneticamente para desempenhar uma função previamente estabelecida na sociedade Kryptoniana. É quando se inicia o princípio ativo, a questão da escolha, o livre arbítrio: “E se uma criança sonhasse em ser algo diferente do que a sociedade esperava?”.

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Zack Snyder, diretor e espartano

Na corrida para salvaguardar o futuro do bebê kryptoniano há ação e efeitos digitais com o máximo de realismo possível, incríveis na tela IMAX. Vemos uma verdadeira guerra civil, o iminente fim apocalíptico do planeta e o então exílio do pequeno bebê para a Terra em planos de câmera inquietos com borrões, buscando o foco e o recurso técnico de luzes invadindo a câmera.  Tal discurso visual lembra o estilo adotado por J.J.Abrams em Super 8 e os dois filmes da nova franquia Star Trek, por exemplo. A Warner investiu pesadíssimo nos efeitos, já que a aventura servirá de termômetro para uma continuação e o futuro filme para Liga da Justiça.

Subitamente, após a chegada em nosso planeta, um corte bruto com Clark já adulto em um dos vários trabalhos que passou. Flashbacks (comumente usado por Abrams) são explorados por Snyder ao longo da narrativa a fim de compor o quebra cabeças sobre a construção do senso de moralidade, amplamente martelado nas mais de duas horas de projeção. Para muitos Clark é um fantasma por nunca fixar-se por muito tempo, mas já para outros é um anjo da guarda salvando vidas, tornando-se assim exposta a maior recomendação feita pelo pai terreno Jonathan: o sigilo. Tudo isso ocorre somente pela busca de autoconhecimento e saber seu lugar no mundo.

O Superman japonês

O Superman japonês

O que faltou em Superman Returns faz-se extremamente hercúleo e imensurável em O Homem de Aço: a ação com explosões, lutas e destruição ao estilo de outro cineasta, Michael Bay. Some isso à trilha sonora de Hans Zimmer, que destoa da de John Williams presente no filme original de 1978, e há o verdadeiro sentido da palavra “épico”. Cada embate entre Superman e Zod tem um significado emocional e ideológico. Os fãs de Dragon Ball Z vão ver neste filme tudo que sonharam por anos.

Sendo assim, pros que acham que o super herói em questão é chato, certinho, e não passa de um escoteiro vejam a fita. Não é somente pelo frenesi em que Clark descobre ter incríveis habilidades como voar. Sim, tal seqüência filmada belissimamente representa o sonho de tantos que é desafiar a gravidade, e é um discurso até mesmo mais profundo, de ser maior que a vida.

Ele é e sempre será o básico para um super-herói, o ponto de partida, o marco zero. Nele há o ingrediente mais puro sobre como um herói deve ser, e num mundo cínico e vil ter esperança pode ser o incentivo adequado para se fazer o melhor.

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Christopher Nolan, produtor e fodão

Por que vale a pena ver? É um ótimo filme pipoca com elenco muito bem escalado desde as escolhas principais até os coadjuvantes. E o tal senso de moralidade tão exaustivamente repetido é posto à prova no clímax chave, a ponto de indagar se é viável escolher o certo, mesmo sabendo que trará conseqüências que vão de encontro a esses mesmos princípios morais (olha o dedinho do produtor Nolan aí por fazer o mesmo em O Cavaleiro das Trevas). Cai-se num limbo onde certo e errado não mais se tornam claramente tão discerníveis.

 

Nota 9,5!